
Acho que passo muito tempo afastado de mim mesmo, e olha que convivo comigo todos os dias.
O mais dificil é conversar, perguntar o que há de errado.
Era tão intimo de mim mesmo, mas parece que fui perdendo essa liberdade. Nem mesmo tenho coragem de me elogiar, e as vezes quando necessário me chamar a atenção.
Hoje me assustei porque foi em uma cadeira de dentista que discuti minha relação comigo mesmo.
Enquanto ela colocava um bexiga com cheiro de chiclets dentro da minha boca, e separava as ferramentas cuidadosamente, eu ia viajando, imaginando qual das dores seria a pior, a das agulhas ou do "motorzinho".
Mas Deus inventou o homem, e o homem inventou a anestesia.
A dor foi dificil, quando ela enfiou a agulha na raiz do dente, mas a agulhada da anestesia foi relativamente relaxante.
A partir dai, pra fugir das raspagenes dentarias e agulhadas que iam e vinham, resolvi bater um papo com a unica pessoa que naquela hora não exigia que eu falasse. Eu mesmo!
Comecei meio sem "lida", meio constrangido, pois à muito não nos falavamos, tinhamos virado estranhos perfeitos.
Nos completavamos, mas nos ignoravamos diariamente. Mas sem rancor de nenhuma das partes, simplesmente aconteceu.
Descobri que a muito tempo eu mesmo queria falar comigo, mas também não tinha coragem, ou empenho para tal.
Descobri que o medo estava acabando comigo, e que por coincidência era o mesmo medo que me consumia.
Descobri comigo mesmo, que eu sou uma pessoa legal, pelo menos eu acho isso.
Descobri que eu tenho muito tempo pra viver e pra ser feliz comigo mesmo.
A certa hora da conversa, percebi comigo, que eu estava triste. Pois tudo indicava que o tratamento estava chegando ao fim, ela retirava as agulhas, que ainda traziam pequenos pedaços de nervos. Se preparava pra tirar a bexiga com cheiro de chicletes.
Percebendo realmente que tudo estava acabando, e que o curativo estava pronto pra ser colocado, pensei comigo mesmo:
Por que eu não falo comigo mais vezes?
Por que só em momentos dificeis procuro saber comigo mesmo o que me aflinge?
Acho que a dor aproxima as pessoas, e não poderia ser diferente comigo. Eu, triste comigo mesmo. Nos gostamos tanto, nos conhecemos tão pouco. A dentista colocou o curativo.
O papo foi bom, mas cá entre nós, acho que só nos veremos daqui a alguns meses na mesa de cirurgia...
...vou fazer uma plástica no cérebro.!